Aquisições no Brasil

Não é novo o tema das aquisições, por grupos de investimentos, de grandes marcas. Começou há bastante tempo na Europa, se intensificando nas últimas décadas com o oligopólio de grandes conclomerados de luxo, mas a chegada deste movimento mercadológico no Brasil é recente, bem recente. Tanto que rendeu uma ótima matéria da revista Exame, a qual eu deixo aqui como material de pesquisa. O texto, obviamente, não foi redigido por alguém do veio de design, como podemos ver pelo mal uso da palavra grife e a generalização da moda como um ramo inferior, mas ainda sim não fica restrito ao economês e trata do assunto de forma bem interessante. Boa leitura! =D

Agora vai dar lucro?

Estigmatizada como um setor que vive de muito glamour e pouco dinheiro, a moda brasileira atravessa uma onda de consolidação sem precedentes. Foram 13 grandes negócios nos últimos 18 meses

Por Daniella Camargos – Reportagem Revista EXAME EDIÇÃO 910 – 24.01.2008

EXAME Entra ano, sai ano, e os assuntos mais discutidos nos bastidores da São Paulo Fashion Week repetem-se tediosamente. A top model que não conseguiu esconder sua solitária celulite, o estilista que se superou ao apresentar uma coleção que nenhum mortal teria coragem de envergar na rua, e que o verde-limão é a tendência que se prenuncia. Na edição de 2008, porém, o bafafá reinante na semana de moda de São Paulo era de outra natureza: só se falava em dinheiro. O motivo foi a recente — e fulminante — onda de aquisições de grifes brasileiras por holdings e fundos de investimento. Em menos de um mês, marcas como Alexandre Herchcovitch, Isabela Capeto, Fause Haten e Ellus foram compradas. Foi o auge de um movimento que começou em julho de 2006, quando a firma de investimento HLDC comprou a Zoomp. Desde então, 13 negócios foram fechados, e o dinheiro movimentado superou os 300 milhões de reais. O fuzuê na São Paulo Fashion Week deve-se, ainda, à percepção geral de que essa onda de aquisições está muito longe do fim. Marcas como Siberian e Crawford, do empresário Dácio Oliveira, vêm sendo constantemente assediadas. “Esse é um setor que tem atraído investidores no mundo inteiro”, disse Xavier Mayer, diretor do banco de investimento Morgan Stanley, em Londres, em uma palestra sobre moda no Brasil. “Era natural que esse interesse também chegasse aqui.”

Os dois compradores com mais apetite têm sido o grupo HLDC e o fundo de private equity Pactual Capital Partners, que administra o dinheiro dos ex-sócios do banco de investimento carioca Pactual, vendido ao suíço UBS em 2006. A lógica de ambos é a mesma — enquanto os executivos dos fundos tocam o negócio, os estilistas das marcas compradas cuidam exclusivamente das coleções. Os dois pretendem criar holdings que administrem diversas marcas em diferentes nichos de mercado. Curiosamente, cada um adquiriu uma empresa com maior penetração em shoppings e outra vista com potencial para se destacar no mercado internacional. No caso do HLDC, as marcas são Zoomp e Alexandre Herchcovitch. No caso do Pactual, Ellus e Isabela Capeto. Segundo a estratégia desenhada pelos dois grupos, diversas grifes reunidas sob o mesmo guarda-chuva trariam ganhos de escala, com a unificação das fábricas e da administração, e com o aumento do poder de compra ante fornecedores de matéria-prima. Ainda de acordo com os planos, essas holdings ganhariam musculatura para, no futuro, tornarem-se companhias listadas na bolsa de valores. O objetivo do Pactual Capital Partners é que a recém-criada InBrands atinja um faturamento de 1 bilhão de reais em até três anos.

Exceção feita às modelos nacionais, a moda brasileira tem sido uma decepção do ponto de vista dos negócios. A falta de capacidade gerencial, a enorme informalidade do setor (basta pensar na última nota fiscal que o leitor recebeu numa loja de grife) e a concorrência com produtos falsificados são as principais explicações para os seguidos casos de fracasso. A própria Zoomp, comprada recentemente, esteve à beira da falência e custou muito pouco à HLDC, que herdou a enorme dívida da companhia. Os passos mais ambiciosos de estilistas nacionais foram seguidos por quedas estrondosas. Em 1999, o estilista Ocimar Versolato fechou os showrooms de sua grife no exterior por absoluta falta de recursos. Pelo mesmo motivo, Nelson Alvarenga, dono da Ellus, desistiu do sonho de lançar sua coleção fora do país. Em momentos de euforia, como o atual, é normal imaginar que tudo será diferente — mas chegou mesmo a hora em que a moda brasileira se tornará um negócio lucrativo?

O investimento em setores problemáticos tem sido uma tendência para os fundos de private equity que operam no Brasil. A estratégia é, quase sempre, a mesma. O fundo compra uma empresa de um setor extremamente pulverizado e turbina seu crescimento por meio de aquisições de companhias enfraquecidas. Foi assim no setor de educação, com a rede Anhanguera e o fundo Pátria, com a BR Malls e o GP no segmento de shoppings e, agora, com a Advent International e o mercado de restaurantes. O raciocínio dos investidores que entram no mundo da moda é parecido: a criação de uma companhia com escala, o apoio financeiro de um fundo e a gestão profissional impulsionariam o crescimento das marcas compradas. “Queremos transformar o que hoje são marcas expressivas em negócios relevantes e lucrativos”, diz Vicente Mello, presidente da I’M, holding criada pelo grupo HLDC.

A onda de aquisições levou a comparações eufóricas entre as novas holdings da moda brasileira e os grandes conglomerados europeus de marcas de luxo. De acordo com os mais otimistas, a existência de gigantes como LVMH, que controla marcas como Donna Karan e Louis Vuitton e tem faturamento de 15 bilhões de euros, seria uma evidência de que a criação de holdings multimarcas brasileiras tende a ser bem-sucedida. São comparações precipitadas, dada a enorme diferença entre a força das marcas estrangeiras e as nacionais. Além disso, a análise detalhada do funcionamento desses conglomerados mostra que a convivência entre investidores e estilistas pode ser abrasiva. O renomado estilista japonês Kenzo Takada, por exemplo, travou recentemente uma batalha judicial com o grupo LVMH pelo direito de usar sua marca. O alemão Helmut Lang teve sua marca adquirida pela gigante Prada, mas os desentendimentos sobre os caminhos a ser adotados pela grife fez o casamento durar apenas seis anos. “A união entre um estilista que se considera um artista e investidores que só pensam em lucros tem enorme potencial para gerar atritos”, diz Mayer, do Morgan Stanley. A situação vivida recentemente pelo estilista Marcelo Sommer é tudo que os fundos que investem em moda querem evitar. Ele vendeu sua marca ao grupo catarinense AMC Têxtil, em 2004, e ficou responsável pela criação até março de 2006. Foi dispensado um ano antes do fim do contrato e perdeu o direito de usar a marca que leva seu sobrenome. Hoje, ele é responsável pela marca O Estilista.

ALÉM DE ADMINISTRAR O EGO dos criadores, os investidores terão um enorme desafio em seu objetivo de acelerar as taxas de crescimento das marcas compradas. No mercado interno, a competição com produtos piratas e redes informais é um entrave conhecido. No mercado externo, os desafios são ainda maiores, dado o virtual anonimato das marcas nacionais. Ainda neste ano, Alexandre Herchcovitch vai inaugurar uma loja em Nova York. Nos próximos cinco anos, pretende abrir lojas também em Berlim, Paris e Londres. “Sozinho, não poderia nem sonhar com isso”, diz ele. Com o apoio financeiro do Fundo Tarpon, a marca de calçados Arezzo pretende abrir entre cinco e dez lojas na China. Os especialistas prevêem uma grande dificuldade para as grifes brasileiras na disputa pelo consumidor das principais capitais do estilo. “A moda brasileira brilha, mas não vende”, diz a consultora Gloria Kalil. “Não vende aqui dentro porque o mercado é restrito e não vende no exterior porque não é conhecida.” Enquanto marcas internacionais, como Gucci, têm mais de 2 000 pontos-de-venda e faturam alguns bilhões de dólares anualmente, as maiores grifes brasileiras têm, no máximo, 40 lojas próprias e não faturam mais que 200 milhões de reais. “Mesmo com o apoio de um investidor, a competição é desigual”, diz o executivo de um fundo que analisou a compra de diversas marcas brasileiras mas decidiu ficar de fora.

Do ponto de vista de um fundo de private equity, investimentos em moda trazem dois tipos de dificuldade. A primeira é a administração de um negócio instável por natureza: coleções impopulares podem gerar estoques enormes, que precisam ser queimados com prejuízo. O outro problema é a ausência de um leque de alternativas na hora de recuperar o dinheiro aplicado — a saída do investimento. Em setores como o de shoppings ou universidades, há muitos investidores estratégicos, nacionais e estrangeiros, dispostos a comprar grandes grupos para crescer. Quem entra no ramo hoje, portanto, tem boas chances de conseguir vender o negócio mais à frente, preferencialmente com lucro. Em moda, porém, as maiores grifes do mundo não precisam de marcas locais — Prada e Louis Vuitton, afinal, fazem sucesso em qualquer lugar, seja no Brasil, seja no Azerbaijão. A única opção para investidores que futuramente queiram sair do negócio, portanto, é a bolsa de valores. É por isso que a abertura de capital é considerada um passo vital no modelo de negócios dos investidores. Dependendo do humor do mercado e do desempenho da empresa, porém, a janela da bolsa pode nunca se abrir, o que torna o investimento de alto risco para os fundos de investimento. “Eu jamais aprovaria internamente uma transação nessas condições”, diz o diretor de um dos maiores fundos de private equity em operação no Brasil. Mesmo que a abertura de capital se prove viável, não será fácil obter retorno para os investimentos: segundo EXAME apurou, os preços cobrados pelas marcas brasileiras giram em torno de nove vezes a geração de caixa, patamar considerado alto. “O máximo que me ofereceram é 7,5 vezes a geração de caixa”, diz Tufi Duek, dono da Forum, uma das marcas mais assediadas pelos fundos. “Ainda é pouco.”

Os primeiros meses dessa “nova era” da moda brasileira foram pouco alvissareiros. Ao comprar a Zoomp, em 2006, o grupo HLDC encontrou uma empresa com enormes dificuldades financeiras, entre elas uma dívida de aproximadamente 30 milhões de reais. Os planos para a grife, no entanto, eram ambiciosos. Entre eles estavam a abertura de lojas exclusivas em Bahrein e no Kuwait. Até agora, nada disso se concretizou e os investidores não conseguiram, um ano e meio depois da aquisição, sanear os problemas da marca. A Zoomp continua devendo para fornecedores — só com a Verup, empresa de software especializada na área de moda, a dívida é de 2,3 milhões de reais, que estão sendo cobrados na Justiça. “A sinergia entre várias marcas não garantirá empresas mais fortes e bem-sucedidas”, diz Glauco Abdala, sócio da consultoria Galeazzi. No Brasil, ganhar dinheiro com moda sempre foi difícil. A aposta dos profissionais especializados em investimentos é que sua chegada ao setor faça, afinal, com que o glamour não fique restrito apenas às passarela

 

 

As aquisições mais recentes – As principais marcas brasileiras vendidas a fundos de investimento

Isabela Capeto

Investidor – Pactual Capital Partners

Motivo – Suas peças fizeram sucesso no exterior antes mesmo de ganhar o Brasil. O objetivo é torná-la ainda mais conhecida fora do país

Zoomp

Alexandre Herchcovitch

Ellus

Investidor – Pactual Capital Partners

Motivo – É a marca com maior presença em shoppings no Brasil — a eventual elevação de renda no país traria conseqüências diretas para o negócio

 

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